efeitos da propaganda nazista

A Dimensão Cultural das Relações Internacionais em “Hitler Builds”: Os Efeitos da Propaganda Nazista Sob A Óptica das Teorias Realista e construtivista

Introdução

A busca por poder ao longo da história significou incontáveis vezes um sinônimo de guerras e destruições em massa de diversas regiões e culturas. Entretanto, há várias maneiras de se exercer domínio sobre um povo, sendo uma delas por meio da propaganda, a qual foi amplamente utilizado pelo Partido Nazista.

A propaganda é um veículo não só eficaz na transmissão de informações, mas também subliminar na difusão de ideias, o que faz dela um ótimo instrumento de manipulação de massas. O Partido Nazista soube se utilizar muito bem dessa função estratégica para consolidação da sua imagem, e, principalmente da figura de seu líder, no imaginário do povo alemão.

O presente artigo se propõe a analisar como a propaganda foi um elemento fundamental nesse período histórico a partir de seu impacto cultural segundo as lentes teóricas realista e construtivista.

Desenvolvimento – os efeitos da propaganda nazista

Todas as teorias de Relações Internacionais trabalham com a cultura em algum nível. Logo, é possível analisar a propaganda abaixo como um elemento cultural a partir de várias perspectivas.

efeitos da propaganda nazista
“Hitler Builds”, 1933 (2015)

Esse cartaz, que foi realizado em novembro de 1932 e publicado pelo Partido Nazista para as eleições federais realizadas na Alemanha em 5 de março de 1933, tinha como objetivo principal a evidenciação do poder absoluto de tal Partido. Intitulado “Hitler Constroi- Vote Lista 1”, coloca-se claramente em destaque um enorme prédio vermelho simbolizando o “futuro brilhante” que a Alemanha teria pela frente caso o Partido se elegesse.

O uso da cor vermelha não foi ingênuo, pois além de destacar a grandeza da estrutura, transmite as ideias de vitória e poder, ascendência essa que buscava convencer a população de que esse era o caminho para a salvação da Alemanha, ou seja, a possibilidade de um retorno à uma nação bem estruturada e digna que dependia da participação dos cidadãos para tal (os quais são caracterizados pelas janelas do edifício).

É válido ressaltar também que o fundo branco foi estrategicamente escolhido para evidenciar as cores vermelha, branca e preta, as quais compõem a bandeira do Partido, além do papel de destaque para seu principal símbolo: a cruz suástica (Gomes, Nogueira, Braz, Júnior, 2002, p.33).

  • importante ressaltar que a cruz suástica aparece na maior parte das culturas europeias, desde os gregos- para os quais representava o sol- até os antigos romanos-onde adquire características guerreiras-, só sendo caracterizada por um sentido anti-semita muitos anos mais tarde, ao contrário do que era propagado pelos dogmas nazistas. A partir desse momento, ganhou uma conotação de “ação por excelência”, indicando um ciclo de perpétua regeneração (Araujo e Heck, 2017, p.14). Para Paula Diehl (1996), ao ser reutilizada pelos nazistas em toda sua propaganda, inserida no contexto histórico pelo qual passava a Alemanha, e associada a outros ícones e cores, a suástica parece ganhar em vitalidade e aumentar seu fascínio e sentido hipnotizador.

Dessa forma, seu uso no cartaz apresenta uma clara intenção: representar o avanço e o progresso que o Partido traria à Alemanha.

“Para garantir seu sucesso, Hitler observou alguns pontos eficazes para a propaganda. Uma das principais regras citadas por ele era a de que não se deveria “dispersar o ódio das massas”, isto é, deveria-se apontar o mínimo de inimigos possível a serem combatidos e apenas um por vez. Assim, evitar-se-ia que as massas se confundissem. Era preciso que se apresentasse um mundo maniqueísta, de fácil compreensão e de ideias simplistas, pois essa massa deveria ser conquistada por “seus sentimentos” e não por sua capacidade de análise. Quanto mais simplista e radical a propaganda, mais seguros os resultados obtidos com ela.”

DIEHL (1996, p. 86).

Além disso, toda a significação do cartaz se intensifica com o título “Hitler Constroi”, o qual indica o responsável por tornar o progresso sugerido possível. Segundo as acadêmicas Denise de Araújo e Larissa Heck (2017, p.15), pode-se até considerar a figura do edifício como o próprio Hitler, que assim como a construção, grande e imponente seria sua atuação. Em contraposição aos elementos em destaque, há a frase “Vote Lista 1”, que apesar de não se encontrar tão destacada, de maneira clara e objetiva incita o cidadão a votar no Partido vista as promessas feitas.

Assim, é possível perceber que o poder persuasivo tão presente nos discursos de Hitler também se manifestou por meio das imagens, cores e signos apresentados nas propagandas da época, que incluíam subliminarmente (e às vezes até claramente) a ideologia do Partido Nazista, configurando-se como um instrumento crucial para a aquisição e manutenção do poder deste, além da implementação das suas políticas (Temática, 2017, p.16).

A Teoria Realista dialoga diretamente com os conceitos apresentados, principalmente o de poder e dominação, colocando o Estado como principal ator do Sistema Internacional e aquele que detém o monopólio da força. Nessa concepção, entende-se que os Estados estão sempre em busca da maximização do seu poder, e sua principal forma de expressão é através da capacidade bélica (Suppo e Lessa, 2012, p.20). Todavia, o realismo ofensivo de Hans Morgenthau trouxe uma nova perspectiva ao abordar as diferentes possibilidades de uso do poder- hard e soft power-, diferenciação essa feita primeiramente por Joseph Nye.

Segundo Morgenthau (Suppo, 2012, p.16), o uso do soft power- ou até do smart power, a combinação entre os dois tipos- deveria ser destacado, principalmente no que diz respeito a sua utilização como instrumento de dominação cultural. Para ele, tal tipo de dominação é muito mais durável do que por meio do aparato bélico, pois este último exige manutenção constante, enquanto que elementos como a imposição de uma nova língua, valores e modo de vida na sociedade dominada se perpetuam, tornando mais difícil uma resistência por parte do dominado.

Assim, Morgenthau (Suppo, 2012, p.16) entende a cultura como um instrumento de poder a partir de três dimensões: imperialismo cultural, modelo cultural e ideologia. Destes, o primeiro seria o mais antigo, sutil e efetivo, pois persegue “o controle das mentes dos homens como ferramenta para modificação das relações de poder entre as nações” (Morgenthau, 2003, p.199), ideia essa colocada em prática por Hitler por meio de propagandas como a apresentada.

Já no caso do modelo cultural, este diz respeito a determinação do caráter nacional, um elemento intangível do poder nacional, que se desconsiderado pode levar a erros estratégicos. No caso da ideologia, o autor também a considera uma forma de controle, a qual também foi amplamente utilizada e difundida por Hitler por meio da propaganda.

O autor Raymond Aron (1992, p.19) segue uma lógica similar à de Morgenthau, destacando como principais objetivos de um Estado a potência, a glória e a persuasão. Aqui, o paralelo com a propaganda nazista é claro, pois a lógica de que uma Alemanha forte e gloriosa só seria alcançada por meio da destruição do inimigo comum (judeus) – impedidores desse avanço- foi constantemente propagado pelos meios de informação.

Esse tipo de violência velada (difundida pelo Ministério da Propaganda do Reich, sob comando de Joseph Goebbles) é uma das mais perigosas existentes, segundo Pierre Bourdieu (2012, p.239), pois por ser uma dominação camuflada permite a imposição de valores e crenças sem coação física, através de aspectos sociais, culturais e simbólicos, ou seja, trata-se de uma naturalização que passa despercebida.

Já o autor Edward Carr, abordava o poder político a partir das esferas militar, econômica e das ideias (2001, p.188). Nesta última concepção, a propaganda seria um ótimo exemplo de difusão do interesse nacional, contudo, para o autor, as ideias propagadas deviam ter algum grau de veracidade. Isso explicaria o porquê da preocupação do Partido Nazista em buscar na ciência uma explicação para a “superioridade ariana”, um de seus principais elementos de defesa usado na justificativa para o massacre judeu.

Para Carr (2001, p.301), uma ordem internacional nunca pode se basear apenas no poder, pois a humanidade, no logo prazo, sempre se voltará contra o poder puro, de forma que “qualquer ordem internacional pressupõe uma dose substancial de consentimento geral”. Hitler buscou construir tal consentimento geral a partir da propaganda, oferecendo por meio dela motivos que ele considerava lógicos para suas ações (por exemplo: “judeus são um impedimento do avanço alemão, logo, devem ser destruídos”).

Dessa forma, para os realistas clássicos de maneira geral, a cultura serve como um recurso de poder que pode influenciar tanto os meios, formas e intensidade pelo qual os Estados buscam aumentar seu poder, como também o motivo principal da guerra entre eles (Suppo, 2012, p.20).

Já os autores construtivistas, além de colocarem a cultura em uma posição de maior destaque, se propuseram a questionar os pressupostos positivistas do realismo sobre a objetividade do conhecimento. Tal teoria se diferencia das demais principalmente em sua tentativa de abarcar temas até então considerados marginais, como a cultura, identidade, discursos, práticas, entre outros, considerando assim as próprias relações internacionais como uma construção cultural (Suppo, 2012, p.38).

Uma das principais características da teoria construtivista é a necessidade de contextualizar historicamente o lugar onde surgem as práticas, discursos e valores (Suppo, 2012, p.38). No caso do exemplo artístico escolhido para este artigo isso se mostra essencial, pois não há como analisar uma propaganda do período de ascensão do Nazismo sem levar em conta toda a ideologia defendia por este que se reflete claramente na arte da época.

Segundo Newmann e Nexon (2006, p.6), há quatro abordagens possíveis que envolvem as relações internacionais e a cultura: cultura como política, como espelho, como dados e como constituinte. No caso da propaganda, vemos claramente a atuação das 3 primeiras dimensões, pois ao mesmo tempo em que a arte foi utilizada como forma de manifestação política por parte do Partido e espelho de seus dogmas e conceitos, ela também contribuiu para naturalização de todas as ações deste no imaginário populacional, mostrando-se tanto como um instrumento pedagógico quanto uma evidência clara das ideias, crenças e identidade difundidas pelo Partido Nazista.

  • importante ressaltar ainda uma segunda característica da teoria construtivista: a intersubjetividade por meio da qual o conhecimento é elaborado (Suppo, 2012, p.38). Diferentemente dos realistas, para os construtivistas o foco não deve estar na anarquia do Sistema, mas sim em como as ameaças são socialmente construídas, sendo a cultura um guia de interpretação da realidade que leva a redução das incertezas. Hitler buscou construir a imagem de um inimigo comum ao povo alemão (judeus) justamente para facilitar a aceitação de suas ações, sendo tal caracterização pejorativa representada na arte propagandística.

No cartaz em questão é clara a apresentação dele (na personificação do edifício) como o salvador da Alemanha, como o único capaz de comandá-la naquele momento, podendo-se considerar até mesmo a sombra embaixo do prédio como a ameaça que ele prometia combater (e que ele próprio designou assim).

Segundo o autor Nicholas Onuf (1998, p.59), as ideias não são simples reflexos do mundo material, pois os agentes formam a sociedade ao mesmo tempo em que esta última também os forma, ou seja, trata-se de uma construção mútua. Tal co-constituição, que permite aos indivíduos produzirem regras e serem afetados por elas é o que faz deles agentes. Logo, não bastava que Hitler expusesse por meio da arte propagandística ou dos meios de comunicação seu projeto para o país, era preciso também o apoio, a concordância da população para que isso se tornasse possível. Para o autor, que considera a linguagem como elemento constitutivo (não representa somente o mundo como ele é) o discurso produz regras, e estas também os regulam, conferindo valor de ação a eles ao transformarem a realidade social.

No caso de Alexander Wendt (1999, p.258), o foco deveria ser o entendimento de como as ideias afetam o interesse nacional, visto que os Estados possuem culturas que não são fixas, mas sim que evoluem em função do contexto histórico e da intersubjetividade. A cultura poderia então se basear na desconfiança do outro (hobbesiana), na rivalidade com o outro (lockiana) ou na colaboração e amizade (kantiana). O Partido Nazista certamente teve seu propósito alinhado com as duas primeiras alternativas na busca da união nacional contra o inimigo comum determinado por ele, o que é bem evidenciado na obra, pois quanto mais próximo do topo do edifício, mais larga fica a estrutura deste, impondo não só uma distância, mas uma hierarquia clara entre aqueles que dominam e aqueles que são excluídos.

Conclusão

Dessa forma, é possível perceber que independentemente da lente teórica usada para analisar um contexto histórico, a dimensão cultural desempenha um papel fundamental para compreensão tanto da realidade social como de seus elementos constitutivos. No que se propôs este artigo, pode-se concluir que o uso da arte propagandística como instrumento de poder e persuasão foi um componente essencial para o domínio exercido pelo Nazismo, pois diferente de outros meios de comunicação a arte carrega um conjunto infinito de significados que transmitem continuamente e de maneira inconsciente um alto número de informações na forma de cores, expressões, traçados, formas, entre outros elementos.

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Giulia Neiva Armentano
Meu nome é Giulia Neiva Armentano e sou formada em Relações Internacionais pela PUC-Rio (2020.2). Atualmente curso Direito na UERJ, estagio no V Juizado Especial Criminal do TJRJ e sou tradutora de inglês voluntária da instituição PARES-Cáritas. Ao longo da minha jornada acadêmica publiquei artigos científicos, estagiei na empresa IBM, fui voluntária na Cruz Vermelha e em projetos sociais, realizei simulações da ONU, auxiliei no EJA do Colégio São Vicente de Paulo como monitora de espanhol e participei do programa de iniciação científica da Fiocruz. Minhas principais áreas de interesse são as de direitos humanos, a influência de afetos e emoções nas Relações Internacionais e direito digital e os limites da liberdade de expressão.
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